2026-04-09
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Aline Wolff: 'Alta performance sustentável' é possível com ajuste na rotina — Foto: Divulgação/Editora Planeta/AFP
GERADO EM: 08/04/2026 - 11:56
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Quando a ginasta Rebeca Andrade recebeu o Prêmio Laureus,o Oscar do esporte,fez questão de agradecer nominalmente uma profissional: sua psicóloga,chamada Aline Wolff,que esteve com ela durante lesões que a levaram para a mesa de cirurgia em três ocasiões. No discurso,a multimedalhista disse que Aline foi "importantíssima para que o mundo pudesse conhecer não só a atleta,mas a Rebeca pessoa também".
É justamente essa dinâmica na qual o sucesso profissional não apaga a vida pessoal que a psicóloga do Comitê Olímpico Brasileiro (COB),desde 2013,descreve em seu livro "Alta performance sustentável: saúde mental para vencer",recém-lançado pela Editora Planeta. Na publicação,a especialista fala como é possível atingir objetivos sem fechar os olhos para todo o resto que compõe uma vida saudável. Sim,tem tudo a ver com o controle de carga absolutamente utilizado pelos atletas.
Em entrevista ao GLOBO,Aline falou sobre como preparar-se para as grandes oportunidades,porque tentar render o mesmo volume de trabalho o tempo todo é pouco efetivo e qual seria a "vacina" para a falta de foco provocada pelas redes sociais.
Como mudar a percepção de que alta performance precisa ser cercada de sacrifício?
Trago esse desconforto já no título do livro. As pessoas ficam: “Como assim alta performance sustentável?” É como se essas coisas não combinassem. O livro fala dessa busca (por equilíbrio). Alta performance é conseguir encontrar o que procura. Quando fazemos um movimento de nos sacrificarmos,estamos na verdade ignorando nosso funcionamento como seres humanos. Temos momentos de entrega e momentos de recuperação. Na realidade,a alta performance só é realmente alta se conseguimos sustentar,se formos humanos,se formos baseadas no que conseguimos fazer. A performance da máquina é muito longe do que a gente,de fato,consegue fazer. Qual o resultado de abrir mão de tudo para conseguir sucesso? Basta olhar o número de pessoas adoecidas.
Como construir uma rotina equilibrada a partir disso? A performance precisa estar no centro dos dias?
Essa definição parte de cada um. Isso tem a ver com os momentos da vida. Se a pessoa está começando uma nova fase,acaba de ter um bebê,por exemplo,será que vai ser possível ter alta performance naquele momento? Ou a alta performance dela será viver esse momento na melhor forma,sem se dividir? Essa lógica não é só para o trabalho. Se não,a gente começa a achar que produzir,render,é a única coisa que importa na vida. E não é assim. Temos múltiplas identidades.
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É preciso ensinar as pessoas a comemorar as vitórias?
O esporte é interessante porque tem essa ritualística da comemoração. Na vida não temos isso,então temos que lembrar de fazer essa comemoração. Nem que seja um momento de pausa e reflexão em que pensamos: que legal,consegui ter ido de um ponto a outro. O que acontece normalmente são as pessoas não pararem para notar o que aconteceu. A sensação que eu tenho é que as pessoas estão numa esteira em que entregam um projeto e,logo depois,vem o próximo. Precisamos sair da esteira ao menos para ver o que construímos e para avaliar o processo.
Como acontece isso na sua prática,com os pacientes?
Existe um trabalho de construção junto a pessoa para que ela reflita sobre como ela está. Sou psicóloga,não professora,entende? Esse trabalho respeita o trabalho psicoterápico. Eu vou provocar para que a pessoa observe o que precisa ser observado. E por que tem que ser essa forma? Quero que a pessoa entre em contato com seu próprio funcionamento. Entenda por que ela não para e qual o impeditivo para ela parar. No nosso trabalho,construímos uma relação de confiança e troca,para que a pessoa se enxergue. Meu objetivo é que a pessoa não precise mais de mim para quase mais nada,que eu fique dispensável. Brinco que os limites saem da boca porque a pessoa se conhece,não precisa ensaiar antes de dar o limite. Isso que significa ter uma saúde mental melhor não é estar zen o tempo todo.
Para muitos profissionais o trabalho é grande,longe dessa coisa de estar zen…
Algumas pessoas entendem saúde mental como não fazer nada. Como fazer pilates duas horas da tarde,depois fazer uma limpeza de pele,massagem. Não é isso,na verdade,não cuida de nada. Porque você também está abandonando partes importantíssimas suas ali. Então,cuidar da saúde mental é fazer com consciência,com inteireza.
No seu livro você fala de periodização,que é o controle de carga dos atletas,que não vão ao esforço máximo diariamente. Como isso pode ser aplicado a outras profissões?
O primeiro ponto: saber que não vou render o máximo o tempo todo no trabalho,porque isso não é possível,não é humano. Não somos máquinas. Precisamos nos tratar de acordo com a nossa natureza. Um passo é começar a entender a minha agenda da semana,o meu ano,os meus próximos cinco anos. Desse modo,compreende-se que existem alvos específicos (que demandam mais energia) em cada uma dessas fases. Porque é assim a vida. Se eu acabei de ter um bebê,nos próximos cinco anos o meu alvo pode ser,estar mais disponível para a família. Passada essa fase,pode ser que eu queira dar um salto na minha carreira. Isso já é uma mudança,que quer dizer ter uma carga maior para o trabalho. É importante ter clareza da nossa agenda,quais serão os picos das semanas,do mês do ano,quais são os dias críticos. Desse modo,é possível organizar os outros dias para que eles não sejam igualmente desafiadores. Esse é um modo de chegar nesse dia importante,quando há as entregas principais,com energia. Senão,podemos chegar no momento em que sabemos que é o mais importante com metade da força.
Essa é uma forma mais fácil de ter clareza e definir prioridades?
Sim. Porque,do contrário,o que acontece é que as pessoas ficam com a falsa ideia de que estão entregando muito,mas estão,num estado já de muita sobrecarga. E acabam entregando algo que é muito na média. Tudo bem até a gente estar na média,porque às vezes a média é suficiente,diga-se de passagem. O problema aqui é estar na média quando você sabia que aquela entrega em específico teria que estar perto dos 100%. Porque aquela era uma super oportunidade. E aí você está lá com olheiras,se arrastando,respirando fundo,porque não tem mais energia.
Como ter essa dedicação em um tempo em que ter foco é um desafio tão grande?
Precisamos entender que o nível de estímulo que a gente tem hoje cria um efeito sobre como estamos processando as informações. Ao saber disso,é possível tomar decisões preventivas. Uma forma é dedicar tempo a ter experiências,que são riquíssimas. Como o esporte,a arte. Além disso,estar com pessoas sem visitar o celular o tempo todo,conversando,dando risada. Ou então,dar um mergulho no mar. Isso é importante porque estamos o tempo todo vivendo as coisas um pouco pela metade. Estamos,vendo um filme ou passando um tempo com alguém,mas também no celular. Por conta disso,precisamos criar espaços em que estejamos imersos nessas experiências,porque isso nos protege. Funciona como uma vacina para o nosso cérebro.
Houve aquele episódio,nas Olimpíadas,em que Rebeca Andrade disse que estava “viajando na maionese”,pensando em receitas,antes de competir. É possível treinar a mente,condicionar,da mesma forma que o corpo?
Dá,com certeza. Porque temos alguma escolha de onde colocamos a nossa atenção. Temos que considerar,porém,a valência afetiva das situações. Se eu estivesse falando com você e algum dos meus filhos chorasse muito alto,eu não conseguiria ter (com atenção) na conversa. Seria preciso parar e ver o que aconteceu. Porque essa valência afetiva é muito alta. Por isso que isso não pode ser feito dissociado de todo o trabalho emocional,do estado de segurança emocional que é muito importante ser trabalhado (na terapia). Quando eu estou no estado seguro,eu direciono. Por exemplo,estou aqui ruminando um problema e me vejo ocupada com uma preocupação de uma coisa que eu não vou resolver agora. Nesse caso,eu tenho escolha de direcionar minha atenção para outra coisa. Por exemplo,para minha respiração. E aí eu vou só respirar e contar as minhas respirações. E isso funciona para caramba. Porque a nossa atenção,a gente consegue colocar ela onde a gente quiser,desde que a valência afetiva não esteja chamando a atenção para outra coisa.